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Dona Cadu – Ricardina Pereira da Silva
Dona Cadu - Ricardina Pereira da Silva,

A mestre louceira Ricardina Pereira da Silva, apelidada Dona Cadu, nasceu em Sinunga, município de São Félix, em 14 de abril de 1920 e faleceu à idade de 104 anos, no dia 20 de maio de 2024, na vila de Coqueiros, Maragogipe, onde morava. Conforme seu depoimento, apreendeu o ofício de louceira aos 10 anos de idade, e nunca mais abandonou essa atividade
artesanal. De fato, até os últimos dias continuou confeccionando sua louça (panelas, pratos, alguidares e combucas) na sua oficina, frente à sua casa.
A mestre louceira se destacou por sua fidelidade às técnicas artesanais afro-indígenas, e soube se inserir no mundo contemporâneo através da comercialização das suas peças (muito utilizadas nos restaurantes de comidas típicas baianas), mas, sobretudo, por sua figura carismática, alegre e espontânea que lhe permitiu se transformar em uma pessoa mediática.
Em 2020 recebeu dois títulos de Doutor Honoris Causa, por ser detentora de saberes tradicionais, primeiro pela Universidade Federal da Bahia e, depois, pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Figura 1 - Coqueiros, Distrito de Maragoipe, Bahia
Figura 2 Dona Cadu inciando a confeccção de uma panela, na sua ooficina
Figura 3 - Oficina de D.-Cadu em Coqueiros Distrito de Maragogipe Bahia
Figura 5 - Modelando a base do recipiente. Em primeiro plano, recipientes alguedás secando à sombra
Figura 4 - Modelamento do bolo argiloso, por pressão
Figura 6 - Dona Cadu levantando as paredes do recipiente
Figura 7 - Recipoientes expostos ao sol antes de brunir, na calçada da residência de Dona Cadu
Figura 8 - Recipientes terminados expostos ao sol antes da queima
Figura 9 - Recipientes prontos para a queima, com o material combustível
Figura 10 - Mulheres de Coqueiros, empilhando os recipientes para serem queimados, em fogueira a céu aberto
Figura 11 - Dona Cadu controlando o fogo (ano 1993)
Figura 12 - Fogueira queimando os recipientes à beira do Paraguaçu
Figura 1 - Coqueiros, Distrito de Maragoipe, Bahia
Figura 2 Dona Cadu inciando a confeccção de uma panela, na sua ooficina
Figura 3 - Oficina de D.-Cadu em Coqueiros Distrito de Maragogipe Bahia
Figura 5 - Modelando a base do recipiente. Em primeiro plano, recipientes alguedás secando à sombra
Figura 4 - Modelamento do bolo argiloso, por pressão
Figura 6 - Dona Cadu levantando as paredes do recipiente
Figura 7 - Recipoientes expostos ao sol antes de brunir, na calçada da residência de Dona Cadu
Figura 8 - Recipientes terminados expostos ao sol antes da queima
Figura 9 - Recipientes prontos para a queima, com o material combustível
Figura 10 - Mulheres de Coqueiros, empilhando os recipientes para serem queimados, em fogueira a céu aberto
Figura 11 - Dona Cadu controlando o fogo (ano 1993)
Figura 12 - Fogueira queimando os recipientes à beira do Paraguaçu
Referências
Britto, Marusia, e Shitmann M : As comunidades Ceramistas e os artistas figurativos. Cerâmica popular. Instituto Mauá, Salvador

Etchevarne, Carlos: Sobrevivência de técnicas ceramistas tradicionais no Recôncavo baiano: um registro etnográfico. Habitus Vol 1. N. 1 Universidade Católica de Goiás. 2003

Ricardina Pereira da Silva, Dona Cadu ( Sinunga-São Félix, Ba, 14 de abril de 1820 – Coqueiros, Maragogipe, Bahia, 21 de Maio de 2024) representou claramente a figura de mestre de saberes populares, fiel a seus conhecimentos técnicos, gestos e dizeres tradicionais, trabalhando como louceira desde criança, na Vila de Coqueiros, Maragogipe, Recôncavo baiano. Como todos os mestres, ela é reconhecida por sua integridade, sua condição de liderança, sua popularidade, e, obviamente, pela constância e fidelidade na reprodução de objetos cerâmicos de uso alimentar, as louças.
Sua simpatia e cordialidade fizeram que se tornasse popular dentro e fora da região onde mora, sendo seu trabalho conhecido no Brasil através da mídia nacional. Professores da Universidade Federal da Bahia, especialmente das disciplinas ministradas na Escola de Belas Artes, do curso de Museologia (FFCH), do Curso de Comunicação, de Bacharelado Interdisciplinar em Artes e, ainda, das disciplinas arqueológicas da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, visitaram todos os semestres a oficina de Dona Cadu, que com simpatia e cordialidade, mas com a responsabilidade de quem tem convicção de que é uma referência nacional em termos de produção cerâmica, recebe-os e dá, gratuitamente, aulas de cerâmica, com a dignidade de um professor universitário.

Coqueiros, cenário de vida e de ofício da louceira Dona Cadu
Um rápido comentário sobre o ambiente natural e social de Coqueiros, na beira do Paraguaçu, permitirá compreender melhor o âmbito onde dona Cadu cresceu, viveu sua vida adulta e desenvolveu suas atividades como artesã ceramista, até os tempos de hoje.
A paisagem natural que se desdobra em torno a Coqueiros é aquela típica do Recôncavo, isto é, o rio Paraguaçu correndo entre colinas suaves, com restos esparsos de mata atlântica, alternando-se com áreas de cultivo, pasto para gado, roças e pomares. Um manguezal espalha-se no início do povoado, cada vez menor, em função do aumento das casas que são construídas de forma desordenada.
As primeiras notícias que se têm de Coqueiros foram proporcionadas pelo engenheiro José A. Caldas, na metade do século XVIII, quando aponta o povoado, que já levava esse nome, e uma igreja (hoje em ruinas). Até a década de 1990, Coqueiros era uma localidade muito pequena, simples, com áreas que apontavam despovoamento e abandono.
Hoje, a produção cerâmica, exclusivamente em mãos de mulheres, tornou a vila famosa e foi escolhida por pessoas de fora para construir moradias de fim de semana, o que fez mudar o perfil de moradores e das construções. Mas o setor destinado à fabricação de pratos, panelas, potes e outros objetos cerâmicos continua sendo o mesmo. A casa de Dona Cadu não foi alterada e a sua oficina, em frente, só neste último ano passou por melhorias internas, graças a uma substancial doação que ela recebeu.

Dona Cadu: breve comentário sobre sua vida e sua obra da mestre ceramista
Nascida em 14 de abril de 1920 em Sinunga área rural de São Félix, no Recôncavo baiano, Ricardina Pereira da Silva transferiu-se, ainda pequena, para Coqueiros, sobre o Rio Paraguaçu, acompanhando sua família. Antes de se transferir de localidade, com 10 anos de idade, apreendeu a fazer “louça de barro” com uma senhora amiga da família, Dona Sila. Ou seja que ela chegou à vila de Coqueiros com o ofício já apreendido. Nessa localidade encontra já trabalhando um grupo de louceiras, às quais ela se aproxima e, através de quem, ingressa no mercado da venda de produtos. assim como na socialização de outras atividades como a compra de matéria prima, o uso de espaços de queima, ou na montagem de uma espécie de embaixada para a obtenção gratuita de argilas. Desde então não parou nunca de trabalhar o barro e nesses longos anos ensinou o ofício a inúmeras mulheres, de gerações diferentes. Hoje com 99 anos continua trabalhando, sentada no chão da sua oficina, como sempre fez.
Ainda jovem, casa com um pescador da vila, com o qual teve uma longa vida em comum, interrompida, apenas, pela morte dele. Dona Cadu lembra, saudosa, que adorava sair com o marido a pescar no rio Paraguaçu e ficar horas na canoa antes de regressar, no final do dia, com o que fora pescado. Dona Cadu soube ser uma companheira forte, decidida e fiel nos momentos mais difíceis de carestia. Sua produção ceramista ajudou em muito a superar as dificuldades econômicas. Recorda o esforço que significava ir a pé às feiras de Cachoeira, São Félix e Maragogipe, para vender suas panelas, pratos e potes, junto com uma turma de louceiras.
Dona Cadu teve somente um casal de filhos, mas como costuma ser no Recôncavo baiano e no interior da Bahia, sua família estendeu-se através de redes de compadrio ou simplesmente de laços de amizade profunda com algumas colegas de profissão e com outros moradores da Vila. Entre elas sobressai Dona Lourdes, também louceira, que teve 9 filhos, que Dona Cadu ajudou a nascer e amadrinhou. Hoje, o tratamento familiar de Tia, Madrinha ou Vô por parte de muitas pessoas de Coqueiros indica o grau de parentesco simbólico estabelecido com ela a quem, respeitosamente, pedem a benção quando passam na frente da casa ou da oficina.
Pelo seu aspecto físico enxuto, corpo pequeno e aparentemente frágil ninguém imaginaria que nele se esconde uma pessoa saudável, de grande vitalidade e dinamismo. Sua alegria de viver, otimismo e bom humor (muitas vezes surpreendentemente irônico), convivem com sua afabilidade, compreensão, solidariedade e com um certo “savoir faire” que não parece ter sido apreendido, mas que brota naturalmente e a torna uma pessoa distinguida.
O próprio Recôncavo parece refletir-se na sua figura, mostrando uma ascendência misturada, com traços indígenas e africanos. Ela mesma relata que sua avó materna era índia da região, sem saber identificar o grupo étnico ao qual pertencia. Essa avó parece ter marcado bastante a vida dela, já que sempre a faz presente de forma carinhosa e com admiração. Dona Cadu assegura que a “vovó” teria morrido aos 130 anos de idade e que nunca teve uma doença que a prostrasse. Tinha uma personalidade forte e até o último dia de vida teria tomado seu habitual copo de cachaça. A força genética que marca a semelhança entre ambas, no que se refere a longevidade, não se corresponde no que diz ao hábito da bebida, já que Dona Cadu declara que nunca bebeu álcool. Por outro lado, o samba seria também um traço distintivo que as aproxima como caráter. Dona Cadu gosta muito de dançar samba de roda, como fazia sua avó. Ainda hoje ela participa de festas na região e dança com muita satisfação.
Dona Cadu também foi benzedeira. Conhecia rezas atemporais e o uso de ervas medicinais, fazendo uso de conhecimentos em que se misturam tradições culturais diferentes, derivadas do catolicismo, das religiões dos povos originais e a dos grupos de origem africana. Sua fama como benzedeira é conhecida na região e muitos vão pedir que ela atue de forma a solucionar diversos problemas físicos e emocionais.
Com relação ao papel que Dona Cadu tem sobre o grupo de artesãs deve se considerar que sua liderança consiste em arbitrar certas questões entre as louceiras, no que concerne às atividades em conjunto, na mediação entre compradores e produtoras e na interlocução destas com o restante dos moradores da Vila de Coqueiros. Alguns depoimentos mostram também o papel de administração socializante quando recebia os pedidos de compradores e dividia o que deve ser produzido com outras mulheres, especialmente com aquelas que estão mais necessitadas.

Dona Cadu, símbolo de resistência de técnicas ceramistas tradicionais indígenas
Em sua oficina construída exatamente frente à sua moradia, do outro lado da rua, Dona Cadu sentada no chão, trabalhou há décadas repetindo sistematicamente os mesmos gestos que há séculos são reproduzidos para a confecção de objetos de barro queimado, usando procedimentos testados em tempos imemoriais e hoje consagrados pela eficiência no preparo, conservação e serviço de alimentos. Nessa produção não se utiliza o torno nem o forno, equipamentos introduzidos pelos europeus, a partir do século XVI.
A atividade de confecção de pratos, travessas, cumbucas e panelas realiza-se durante todo o ano, havendo momentos de baixa produtividade em função dos períodos chuvosos que atrapalham a queima em fogueiras, ao ar livre. As argilas apropriadas eram conseguidas nas imediações na Vila de Coqueiros, em locais cujos proprietários autorizavam a retirada. Hoje, as argilas são encomendadas, compradas por preços altos e transportadas por caçambas, de modo a exigir a repartição dos custos entre várias louceiras.
O primeiro passo é a limpeza de impurezas, raízes e graus grandes de rochas, seguido da pulverização dos torrões de terra. Uma vez peneirado começa a preparar a massa com água até ter uma consistência dura mais maleável.
O recipiente inicia-se com a modelagem, a partir de uma base circular espessa que vai sendo pressionada a par que se alçam as paredes. Paralelamente a todos esses gestos, vai se fazendo girar uma pequena tábua de madeira. Com um fragmento de cuia, chamado coité, vão se alargando as paredes, muito úmidas e flexíveis, até alcançar a altura e a inclinação necessárias, a depender do tipo de objeto desejado. Uma vez o objeto completo deve passar por um período de desidratação e depois ela é retomada para aparar as irregularidades, alisar, pintar e brunir.
A tinta que é passada antes da queima chama-se tauá e corresponde a argilas com forte teor de óxido de ferro (hematita). Espalha-se sobre a superfície alisada e uma vez seca a tinta, esfrega-se um seixo para fixar e distribuir melhor a pintura. O produto pronto espera ainda dentro da oficina o momento da queima.
Em Coqueiro a cocção é feita em fogueiras, na beira do rio Paraguaçu. Da queima podem participar duas ou mais louceiras, para maximizar o aproveitamento do material combustível. Empilham-se os objetos de forma a constituir um acúmulo cônico, sobre o qual se coloca a lenha (bambu, no geral), formando o que se denomina fogueira de bruxa.
É habitual reunir a produção da semana, para queimar no sábado de manhã, se o tempo for apropriado. Pode ser observado o controle do calor da fogueira, mexendo a lenha ou retirando parte dela. Ademais, as artesãs ceramistas esperam o horário certo para botar fogo em uma parte da fogueira. Esse é o momento em que o vento de depois do meio dia avança pelo rio Paraguaçu, com uma velocidade e constância adequadas, o que permite espalhar o fogo de forma correta em todo o conjunto.
Atualmente as cerâmicas de Coqueiros são utilizadas em todos os restaurantes de comidas típicas de Salvador e Recôncavo Baiano. Elas são ideais para as comidas de dendê porque retêm a temperatura por mais tempo, quando retiradas do fogo e colocadas diretamente na mesa. Esta situação, que poderia se apresentar como um paradoxo, entre sociedade moderna e tecnologia antiga, acabou por favorecer à permanência de técnicas tradicionais ceramistas. Os produtos de Coqueiros acabaram se incorporando às atividades econômicas da região metropolitana, como artefatos indispensáveis e preferenciais nos centros gastronômicos.
Por todo o exposto acima, Dona Cadu, é líder indiscutível de um grupo de mulheres ceramistas que prolongam e atualizam uma tradição de tecnologia indígena, que encontrou seu lugar no mundo contemporâneo. Em momentos em que a cerâmica popular artesanal estava a ponto de desaparecer, por falta de compradores, Dona Cadu permaneceu fiel a seu trabalho de louceira, sobreviveu a momentos de desvalorização, ensinou a outras mulheres o ofício e com isso promoveu a continuidade desse saber tradicional. Ao longo dos seus 104 anos soube conquistar, com firmeza e dignidade, uma posição de destaque e fazer de sua produção, louça doméstica de barro cozido, um artigo prestigiado e requisitado.

Referências
Britto, Marusia, e Shitmann M : As comunidades Ceramistas e os artistas figurativos. Cerâmica popular. Instituto Mauá, Salvador

Etchevarne, Carlos: Sobrevivência de técnicas ceramistas tradicionais no Recôncavo baiano: um registro etnográfico. Habitus Vol 1. N. 1 Universidade Católica de Goiás. 2003
Autoria

Autores(as) do verbete:

Carlos EtchevarneeLuiz Alberto Ribeiro Freire

Data de inclusão:

04/02/2025

Datas de revisão / atualização:

05/02/2025;

D536

Dicionário Manuel Querino de arte na Bahia / Org. Luiz Alberto Ribeiro Freire, Maria Hermínia Oliveira Hernandez. – Salvador: EBA-UFBA, CAHL-UFRB, 2014.

Acesso através de http: www.dicionario.belasartes.ufba.br
ISBN 978-85-8292-018-3

1. Artes – dicionário. 2. Manuel Querino. I. Freire, Luiz Alberto Ribeiro. II. Hernandez, Maria Hermínia Olivera. III. Universidade Federal da Bahia. III. Título

CDU 7.046.3(038)

 

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